21 julho 2011

O bom e velho Chico Buarque

Divulgação

Para ouvir o disco Chico (2011) é preciso imaginar-se um senhor com mais de 60 anos de idade e ter o coração febril dos amantes, tal qual o personagem principal do livro Memórias de Minhas Putas Tristes, do escritor colombiano Gabriel Garcia Marquez, que narra a história do velho coração invadido pelo vigor da paixão por uma jovem.

Desligue o computador, a televisão ou qualquer estímulo tecnológico. Sinta o cheiro, o sabor e as cores das cinco horas da tarde. Escreva uma carta. Marque um encontro na praça. Escolha a melhor roupa no guarda-roupa, talvez um bom terno branco, preservando o vinco na calça bem passada. Engraxe bem os sapatos. Perfume-se de Lancaster ou sua melhor colônia. Mire-se no espelho e penteie bem os cabelos acinzentados. Tente ensaiar um discurso amoroso, trechos de poesia, brinque de cantarolar valsinhas, mesmo que você repita o mesmo discurso que seduziu tantos outros amores passados. Aprenda novas gírias, ‘tipo assim, se jogue’, pare o tempo, mesmo que você já não tenha tanto tempo. Permita-se.

Ao mais recente trabalho de Chico Buarque não cabe o adjetivo da novidade. O álbum ecoa canções de outras obras da discografia do compositor, como Carioca (2006) e Paratodos (1994), além das parcerias com Vinícius de Moraes e Tom Jobim. Mesmo com a participação de uma jovem ‘de cabelos cor de abóbora’, Thaís Gulin, com quem divide a faixa “Se eu soubesse”, e que me fez ter saudades da Telma Costa. A outra participação realmente especial é a do baterista Wilson das Neves, velho companheiro, que divide com ele a interpretação do samba Sou eu, parceria com Ivan Lins, e sucesso recente na voz de Diogo Nogueira.

O tempo e a memória descrevem a beleza deste artesão da boa palavra. Nem nos arranjos, nem nas estórias ali cantadas encontramos alguma referência do que nos é contemporâneo musicalmente. O que reforça a constatação já percebida pelos ouvidos mais antenados que experimentamos de uma nova estética da música popular brasileira. Chico Buarque representa o passado. A canção em forma de valsa, toada, samba, baião, marcha, blues, está ali sem ousadias instrumentais, orgânica, em som camerístico e repertório coerente.

Talvez este seja o disco mais confessional do compositor, reflexo de sua vida pessoal. Fácil identificar nas personagens das canções o próprio Chico Buarque, trovador apaixonante e apaixonado. A novidade mesmo está na forma de divulgação do trabalho que teve início no dia 20 de junho, por meio de pré-venda na página virtual do projeto (www.chicobastidores.com.br). O CD está sendo vendido pela gravadora Biscoito Fino ao preço de R$ 29, 90 e, no ato da compra, o cliente adquire uma senha personalizada que dá acesso ao conteúdo exclusivo do site. O lançamento oficial acontecerá no dia 22 de julho, com tiragem inicial de 40 mil cópias. O material que ouvi foi o que está disponível na internet.

Para encerrar, transcrevo aqui trecho da obra do escritor colombiano e que resume bem a essência do que Chico Buarque, em paralelo, nos oferece em forma de música: 

“Nunca fiz nada diferente de escrever, mas não tenho vocação nem virtude de narrador, ignoro por completo as leis da composição dramática, e se embarquei nessa missão é porque confio na luz do muito que li pela vida afora. Dito às claras e às secas, sou da raça sem méritos nem brilho, que não teria nada a legar aos seus sobreviventes se não fossem os fatos que me proponho a narrar do jeito que conseguir nesta memória do meu grande amor”.

Sem mais.


(Texto publicado no jornal O Estado do Maranhão de 21 de julho de 2011)

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A canção segue a torcer por nós. Milton Nascimento