01 junho 2011

À sombra da melancolia gonzaguiana

Sempre fui assombrado pela presença silenciosa da melancolia que me acompanha. Ela tem a mesma intensidade do entusiasmo que tenho para as novidades da vida. Quando se manifesta, a única companhia que quero é a das canções tristes. Não chega a ser uma patologia. Não sou deprimido, nem depressivo, muito menos bipolar. É apenas o meu lado ‘tímido’ de vaca profana. O ‘espalhafatoso’ é mais evidente e constante socialmente, barroco e exuberante.

Compartilho desta autoanálise porque foi a melhor maneira que encontrei para explicar minha inquietação ao ouvir o segundo disco da cantora Clara Becker, Dois Maior de Grande (2006), esse pleonasmo vicioso e intencional à base de um repertório com canções de Gonzagão e Gonzaguinha. Um registro que tinha tudo para soar repetitivo, enfadonho e apático se não fosse esta principal característica da cantora: a melancolia. Essa voz de registro grave e camerístico dialoga com a mensagem de Gonzaguinha que já declarou: “Algumas pessoas acham que o artista tem que rir tem que encher o vídeo de dentes. Não tenho a menor pretensão de ser coerente. Além do mais, sou feio. E faço letras claras que às vezes, as pessoas demoram a sacar”. (Site)

Tudo isso faz ainda mais sentido quando se ouve a releitura de Clara para Sangrando. Isso mesmo, o hino dos cantores de programas de auditório e dos mais viscerais vocalistas de videoquê, que diz que ama com o mesmo jeito que solta a voz transpondo limites, ganha o sentido mais bonito que eu já ouvi, em forma de bolero, com a inteligência de declarar o amor sussurrando no ouvido da pessoa amada, sem vícios, sem excessos, com a sutileza de quem sabe o tom. A partir desta canção, fui entendendo o sentido da expressividade da cantora, até mesmo ao cantar a angústia de um Luís Gonzaga perguntando a um sabiá viajante onde foi parar a pessoa amada (Sabiá).

Esse incômodo pela melancolia de Clara Becker - que por antinome evoca luz e claridade - não se restringe apenas à sua voz. Está no seu olhar triste e misterioso. Estão, sobretudo, no piano e no acordeom com acento jazzístico, base dos arranjos do disco inteiro e onde se sustenta seu canto escuro. Um timbre que parece ter o mesmo sufoco de outra cantora: Maria Rita, filha de brilhantes artistas, expoentes em sua arte. Clara Becker é filha da maior atriz do teatro brasileiro, Cacilda Becker, e do tão dramático Walmor Chagas. No entanto, por ter na música (e não nas artes cênicas) a força de sua expressão, Clara seja menos cobrada por isso. Mas não somos nós mesmos nossos mais incisivos juízes em nosso julgamento interior? Ela esperou 38 anos para sentir-se segura em abraçar a carreira de cantora profissional.


Considero um mérito o fato de que em quase nada o disco remete à paisagem nordestina de Gonzagão. No diálogo do repertório com as músicas de Gonzaguinha, urbano, as canções ganham um sentido na cidade, no trânsito e na vida que corre. Em Pétalas (2003), disco anterior, ela também constrói uma narrativa de amores e paixões à base de piano com canções que vão de Alceu Valença (Pétalas) a Chico Buarque (Lola), passando por Cacaso (Cinema Antigo), Fred Martins (Novamente) e Mário de Andrade (Viola Quebrada).

Em nenhum dos dois, Clara Becker atinge o tom popular daquilo que canta. Seu canto e performance exigem teatro, ar-condicionado e silêncio. Melancolia que combina com frio, com inteligência e certo elitismo e para quem “belezas são coisas acesas por dentro e tristezas são belezas apagadas pelo sofrimento”. (Lágrimas Negras).

Um comentário:

  1. Nossa, fiquei curiosa para ouví-la e comecei a pensar que talvez não seja tarde demais pra mim. Quem sabe quando tu topar ser meu produtor eu crie coragem. Beijus!

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A canção segue a torcer por nós. Milton Nascimento