10 março 2011

Recado a Djalma Lúcio



Cara,


Eu não sei responder a tua pergunta. Nem houve pergunta. Mas, desde aquela tarde de calor e minha sempre agonia de falar em demasia quando a hora é de fazer silêncio e só ouvir, eu venho pensando em te escrever esse recado. Não sei responder o que é emepebê.

Li a revista que você me emprestou com a crítica aguçada do Arthur Dapieve e toda aquela ideia contemporânea de que a música popular brasileira do século que se inicia de novo é fragmentada e que os Los Hermanos são o exemplo de um novo jeito da canção. Junto com a crítica, estive dialogando com os conceitos antropológicos e sociais da pesquisadora Santuza Naves, lendo o mais recente livro dela, Canção Popular no Brasil. Ainda assim, não consigo responder. Não tenho argumentos e não sei desenvolver nenhuma ideia que convença.

Como não sei responder, invento a resposta e digo: emepebê não é e nunca será um gênero. Está mais para um conceito com base em referências legitimadas socialmente e institucionalmente. Vou mais além - e aqui é um argumento irracional - dizendo que eu não consigo classificar uma canção ou artista no critério emepebê por apenas fragmentação de elementos que tenham como base letra, arranjo, melodia, instrumentos, performance. A verdade é que, com timidez, afirmo aqui publicamente para ti: eu só sei sentir a emepebê.

É clichê, é piegas, é ingênuo, mas essa é a única maneira que tenho para explicar a indagação que nunca existiu. Não existiu porque eu já sabia desde o começo que tu tens a resposta e a provocação foi no intuito de confrontar uma ideia parecida. Ou não terias citado Ednardo (a quem sempre bato palmas para dar ibope), Jards Macalé, Jorge Mautner e os benditos criadores da canção. 

Também acredito que tu pensas (sinta) da mesma maneira, por isso a angústia boba em não saber como classificar a música que você mesmo produz. A música que você quer refletir um pouco de Caetano, Lou Reed, Jarvis Cocker e John Frusciante. Você não é sozinho. Como já afirmei no twitter, eu sinto sua música como emepebê a partir dos caminhos que as canções Não quero dançar e Nenhuma estrela apontam. Elas me dizem mais do que a guitarra que acompanha tua voz bonita.

Então, talvez emepebê seja mais um sentimento do que uma mera categoria ou gênero musical. Mas isso é uma discussão que ainda espero ter com Márcio Monteiro, só que de maneira mais racional e crítica.


Se alguém souber a resposta, fico no aguardo. (albertocamposjr@gmail.com)




Abraços para você, para Elen e o que sobrou manda para quem precisar.



Um comentário:

  1. beto, também não sei a reposta. mas gosto da possibilidade de poder sentir e reconhecer a emepebê por algo que é despertado na gente.
    a música do djalma? desperta em mim muitas coisas legais, por isso gosto tanto.

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A canção segue a torcer por nós. Milton Nascimento