07 março 2011

Jeneci e a música híbrida brasileira

Foto: divulgação
Por Polyana Amorim*


A primeira vez que ouvi falar do Marcelo Jeneci foi no Twitter. Lá, alguns colegas comentavam animadamente o quão bom era o primeiro disco solo dele. De início, não dei muita atenção ao falatório, mas quando o vi no DVD do Arnaldo Antunes - Ao vivo Lá em casa, tocando teclado excepcionalmente bem e dando um quê diferente pra proposta Iê-iê-iê no trabalho do Antunes, passei a prestar mais atenção no sujeito.

Dia desses, estava ouvindo as músicas novas do maranhense radicado em São Paulo, Bruno Batista, e lá estava ele figurando entre os músicos que tocam com o Bruno e, diga-se de passagem, é um som divinamente bom. Enfim, virou perseguição, tive que ir atrás do trabalho do Jeneci!

Feito pra acabar é o disco em questão e foi lançado ano passado. O álbum emplacou vários tops do tipo “melhores do ano” em sites e revistas especializadas.Vê-se que não foi à toa. O nome sugestivo talvez insinue a efemeridade que hoje a música tem sofrido com a profusão de milhares de artistas na Internet. Ou não. Talvez seja “feito pra acabar” com as pessoas que o ouvem, tão grande é o deleite sentido. Comigo tem sido assim. Não entrarei em méritos técnico-musicais, até mesmo por que essa não é minha praia, não manjo disso. E como falei a um amigo: eu ouço música que agrada meus ouvidos e meus instintos, o conjunto da obra é que vale na minha opinião, enquanto apreciadora de música.

O álbum, produzido pelo Kassin, tem como músicos gente do naipe do Curumim, Edgar Scandurra e Regis Damasceno. Alguns já parceiros do Jeneci pelo trabalho com o Arnaldo Antunes. Arnaldão, por sinal, divide seis das treze faixas com ele. Um disco feito entre amigos, praticamente, que além de tudo isso traz a voz doce da novata Laura Laviere (me pareceu muito a Tiê)

Um disco inventivo, moderno, urbano, que visita a jovem guarda, os tropicalistas, e traz um certo refinamento típico da bossa e a experimentação corrente dessa galera jovem de hoje. Essa experimentação é influência certeira de sua passagem pelo Cidadão Instigado do grandessíssimo Fernando Catatau. O disco também se destaca pelas letras que por si só já valem todos os elogios que o cara vem recebendo pelos críticos e não-críticos (no caso, eu) Brasil afora.

De fato é um disco feito pra acabar, pra acabar com os rótulos que a mídia insiste em pregar por aí. Não é mais um disco de samba, de rock, de bossa. É tudo junto e misturado, músicas que não surpreendem só pela letra ou pela interpretação, mas pelo conjunto todo, pela ousadia nos arranjos que transbordam um hibridismo rítmico e que acaba sendo coerente com a própria cultura nacional que não se resume a samba e carnaval.

Recomendadíssimo!




*Polyana é mestranda em Cultura e Sociedade pela UFMA e produtora musical da Universidade FM.

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A canção segue a torcer por nós. Milton Nascimento