03 janeiro 2011

Me vejo o tempo todo, começar de novo

A canção, essa forma híbrida de melodia, letra, ritmo e harmonia, desperta os sentidos e nos recoloca a ideia de tempo, evoca memórias, toca a alma subjetiva. Arte que constrói identidade, narrativas, coletividade, grupos sociais. Malditos e benditos são os músicos que com sua arte e ofício tornam-se missionários e mensageiros da beleza que o cotidiano renega. Este blogue foi criado para discutir música brasileira, assim como tantos outros que fazem circular o melhor produto de exportação brasileiro. Criado despretensiosamente, assumo aqui o compromisso de fazê-lo engrenar, produzir, instigar. A proposta é torná-lo coletivo. Coloco-me aqui como mediador de quem deseja também divulgar artistas, discos ou canções da variável música popular brasileira, com dedicação especial à música produzida no Maranhão, local onde meus pés tocam o chão.
Para recomeçar, a canção de Adriana Calcanhotto, que em fevereiro fará show aqui em São Luís.


Abril
Adriana Calcanhotto


Sinto o abraço do tempo apertar e redesenhar minhas escolhas
Logo eu que queria mudar tudo.
Me vejo cumprindo ciclos gostar mais de hoje e gostar disso
Me vejo com seus olhos, tempo e espero pelas novas folhas
e imagino jeitos novos para as mesmas coisas
Logo eu que queria ficar pra ver encorparem os caules
Lá vou eu, eu queria ficar pra me ver mais tarde
sabendo o que sabem os velhos
Pra ver o tempo e seu lento ácido dissolver o que é concreto
E vejo o tempo em seu claro escuro, vejo o tempo em seu movimento
Me marcar a pele fundo, me impelindo, me fazendo
Logo eu que fazia girar o mundo
Logo eu quem diria esperar pelos frutos
Hoje conheço o tempo em seus disfarces
Em seus círculos de horas, se arrastando feito meses
Se o meu amor demora e vejo bem tudo recomeçar todas as vezes
Vejo o tempo apodrecer e brotar e seguir sendo sempre ele

Me vejo o tempo todo
Começar de novo
E ser e ter
Tudo pela frente
Logo eu

Um comentário:

A canção segue a torcer por nós. Milton Nascimento