06 novembro 2010

Beto Ehongue e Canelas Preta

Em 1992, o jornalista e músico pernambucano Fred Zero Quatro, fundador da banda Mundo Livre SA, escreveu o manifesto “Caranguejos com cérebro” que abriu caminho para o movimento Manguebeat em Recife, convocando os artistas a injetarem um pouco de energia na lama e estimular o que ainda restava de fertilidade nas veias da cidade. No texto, ele estabeleceu o paralelo entre a riqueza da diversidade e fertilidade orgânica que o mangue oferece com a realidade de miséria e caos urbano da metrópole pernambucana, a Manguetown.

A antena parabólica enfiada na lama projetou o som dos mangueboys e manguegirls para o mundo, e, em São Luís do Maranhão, vários artistas passaram a se conectar com as boas vibrações do manguebeat. Aliás, as duas cidades nordestinas, Recife e São Luís, são semelhantes em diversidade de manifestações culturais, tradições, musicalidade e até mesmo no mangue. O maranhense Beto Ehongue é um desses caranguejos com cérebro, cuja pulsão criativa vai além do campo conceitual do movimento pernambucano para afirmar na cena musical brasileira a identidade sonora plural e moderna que tem no Maranhão.

 
As composições de Beto já são conhecidas do público que circula pelos festivais alternativos do país pelo seu trabalho com a banda Nego Ka’apor – nove anos de estrada – que mistura ritmos regionais maranhenses, como mina, tambor de crioula, bumba meu boi e pitadas de toques indígenas, com elementos de rock, reggae e soul, e letras que revelam crônicas da periferia e da vida urbana.

O mais recente trabalho de Ehongue junto com o grupo Canelas Preta, formado pelos músicos João Simas (violão e guitarra), Hugo Benigno e Iuri Lira (percussão), Nataniel Fofo (bateria), JohnBass (baixo) e Jessé T. (teclados/samplers) consolida a inventividade do compositor para retratar não somente a crítica social, mas também o romantismo que alimenta a criação dos poetas e suas musas. É o que se ouve nas músicas “Inna Boreal” e “Rosa Semba”, por exemplo. Com arranjos que mesclam samplers, beats e percussão, a base do violão acústico dá novo formato à sonoridade da música de Beto, em referências que vão de Caetano Veloso a Mano Chao. E nas apresentações ao vivo ele tem buscado novo sentido ao se apresentar com o violão no colo, deixando de lado a agressividade contestatória que se fazia presente nas suas performances no palco. A expansão da consciência já é feita com a própria canção.

As músicas das bandas Canelas Preta e Nego Ka’apor estão disponíveis no Myspace.
http://www.myspace.com/canelaspreta
http://www.myspace.com/bandanegokaapor

2 comentários:

  1. Ah, infelizmente eu não consegui abrir as páginas para ouvir Canelas Preta, mas já morei em Recife e vi de pertinho o movimento do som dos mangues, muita cultura, muita arte.

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  2. Ah, sigo o blog para voltar e verificar as novidades, ótimo final de semana...

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A canção segue a torcer por nós. Milton Nascimento