01 novembro 2010

Baixada, com Dicy Rocha

Na região da Baixada, ao noroeste do Maranhão, quando os campos inundam com as águas das chuvas de verão, a paisagem se transmuta no verde intenso do capim novo, refletindo o céu inteiro no espelho d’água que transborda toda fartura na vida que se renova. Os maranhenses que nascem nessa região, apresentam um sotaque que os diferenciam na pronúncia do sotaque, nas expressões cotidianas e na forma de acolhimento particular. O cofo de farinha, a bilha de água, o fogareiro que cozinha o peixe de sabor forte, a música que fazem parte do trabalho de pescadores e lavadeiras que margeiam lagos, rios e campos inundados compõem o cenário de beleza campesina desta paisagem maranhense.

Joaquim Ferreira, compositor maranhense mais reconhecido na ilha de São Luís como o DJ Joaquim Zion, traduziu em versos esta paisagem. Imagens que revelam também a vida dos homens e mulheres que ali sonham a fome de vida e conduzem suas vidas respeitando os ciclos que a natureza determina. Os versos ganharam melodia e sentido na interpretação da cantora Dicy Rocha. Os dois são maranhenses e conhecem bem a realidade da canção que compuseram: "Baixada". A música foi premiada em segundo lugar, ano passado, pelo júri técnico no Festival Universitário de Reggae, em São Luís.

Com uma interpretação cadenciada, Dicy carrega junto com seu canto os sonhos dos homens de vida sofrida que precisam matar a fome dos seus. Sua voz reproduz um carregar de sentimentos em notas que se prolongam reproduzindo o mesmo movimento de ir e vir da rede do pescador, tecida de esperanças na busca do que sacia além dos limites.


Nos últimos meses, temos conhecido mais e melhor os caminhos que a cantora pretende percorrer com seu trabalho musical. Juntando a música dos recônditos brasileiros e das belas paisagens de Cabo Verde, sua intenção é evocar identidades que se cruzam por meio de ritmos, cores e sons que reafirmam uma identidade negra e brasileira. Tanto é verdade que o título Negra Melodia, que ela escolheu para os shows que vem apresentando em São Luís, inspirado na canção homônima de Jards Macalé, comunica bem sua proposta. Mas ela quer ir além e está produzindo quietinha, como quem espera uma fruta amadurecer no cesto, seu mais projeto mais novo: um show com repertório pautado nas músicas do campo, nas músicas de trabalho.

Enquanto isso, vamos nos embalando com o movimento das ondas, do abano e da rede presentes em Baixada. Ouça a música no Palco MP3.


Baixada
(Joaquim Ferreira / Dicy Rocha)

Pescador, pesca a dor e joga a rede com fé. 
Maré alta tem peixe grande no fundo. 
A força das águas alimenta os sonhos e a fome de tudo.

A água escorre dos rios levando a sujeira dos homens. 
Inunda o campo trazendo fartura, curando amarguras de vidas sofridas.

Pescador, esquece a dor, recolhe a rede.
Maré enche, maré vaza. 
Sofrimento que anda em bando.
Arrasta a rede, acende o fogo, arrasta a rede.
Crianças esperam, barrigas vazias.

2 comentários:

  1. Passando por aqui e encantando com tanta sensibilidade...
    Sigo-a, para saber vc voltar, sempre!
    Abçs!
    PS: Se tiver curiosidade, veja o que escrevo tbém...

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  2. Querida preta,

    vc como sempre uma llinda menina maranhense como tantas outras inundadas de sentimento e poesia. Te saludo simpre!

    Cheiros meus...

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A canção segue a torcer por nós. Milton Nascimento