29 junho 2010

Re-festar


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Ainda é dia 29 de junho, quase no fim. E aqui em São Luís os foguetes ainda festejam o dia do santo edificador da igreja católica. Fora dela, a festa rola solta, com muita cor, dança, ritmo, comida, prazer, suor e alegria. É a epifania da tradição popular que esquece a dualidade entre o sagrado e o profano e transforma tudo em festa, fazendo do prazer das vibrações a mesma intenção. 

No resto do Nordeste brasileiro, o dia 24 de junho é a data mais importante dentro do calendário das festas juninas, mas aqui no Maranhão é diferente, tanto que um dia só de festa não é suficiente para tanta manifestação popular, tantas brincadeiras e tantos grupos de bumba-meu-boi: o dia 30 de junho também foi escolhido para reverenciar outro santo, o Marçal, de quem pouco se comenta e muito pouco se sabe, mas que aqui na capital do Maranhão é imediatamente apresentado como santo do bumba-meu-boi, tendo sido homenagem com uma estátua, uma avenida, um feriado municipal e um espaço de concentração público para onde convergem todos os grupos de bumba-meu boi de São Luís que desfilam durante todo o dia na avenida São Marçal numa espécie de transe popular que envolve todo o entorno, todas as classes e todos os grupos folclóricos ao som intermitente das matracas, que são duas pequenas tábuas de madeira que produzem um som ensurdecedor, vibrante e hipnotizante. 

Mas não é sobre São Pedro que eu vim falar aqui. A ele já bastou o merecido longo introdutório. Eu vim mesmo é falar do novo disco do Gilberto Gil, “Fé na Festa”. Disco que traduz muito bem toda a vibração que as festas juninas despertam em nós nordestinos e sertanejos. E queria aproveitar para relembrar: disco é uma obra de arte. Mesmo que ele seja reproduzido, compartilhado, pirateado, multiplicado, esfacelado, fragmentado, virtualizado. O disco condensa a estética de um artista de música, captura um momento social e se torna atemporal, dependendo da qualidade da obra. Aliás, o tempo é talvez a melhor instituição legitimadora de uma obra de arte. Basta esperar a maturação de qualquer obra por dez anos para se ter o distanciamento necessário para compreendê-la melhor.

Fé na Festa tem um apelo comercial explícito. Afinal, qual a intenção de gravar um disco com forró, xote, baião, entre outros ritmos congêneres e lançá-lo no período pré-junino? Eu responderia: “Lucrar, retomar a carreira e fazer a festa”. Mas seria muito óbvio. Gilberto Gil nunca foi óbvio, sempre foi simples. E talvez seja esta a característica principal deste novo trabalho que parece ser redundante na carreira deste compositor de tantos recursos.

Gilberto Gil está cantando bem, com a voz limpa e que acompanha todas suas necessidades rítmicas, tons, semitons, falsetes e agudos que contagiam o ouvinte. O disco inteiro é recheado de novas composições e boas parcerias, a exemplo de Targino Gondim, Vanessa da Mata e Nando Cordel. Gil reafirma nesse trabalho a sua essência musical, herança do velho guerreiro Luiz Gonzaga e do inventivo Jackson do Pandeiro. Entre as composições, destaque para a música “O Livre-Atirador e a Pegadora”, que foi inspirada na música “Vale Night” de Durval Lélis, da banda Asa de Águia. Há também uma regravação, “Norte da Saudade”, que é do disco Refavela (1977), que aliás, é um dos discos mais importantes da música popular brasileira e um dos meus preferidos.

Outra faixa curiosa é a “Não Tenho Medo da Vida”, que destoa das outras por ser uma canção mais lenta e com uma mensagem mais realista, e que sempre esteve presente nas composições de Gil ao se referir à vida sertaneja. Veio a calhar neste momento de angústia pelo qual passam os brasileiros de Alagoas e Pernambuco.

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A canção segue a torcer por nós. Milton Nascimento