05 junho 2010

MPB ou Música Popular de Barzinho.

"Foi nos bailes da vida ou num bar em troca de pão que muita gente boa pôs os pês na profissão". Fernando Brant e Milton Nascimento fizeram muita gente cantar essa frase com o maior orgulho do mundo como se o início no bar ou nas bandas de baile fosse uma grande escola musical para quem alcançou o nirvana do mercado fonográfico, ou seja, fazer parte de um cast de artistas de uma gravadora multinacional. O bar realmente foi e é importante para muitos músicos, mas ele também pode ser um grande castrador de talentos. (No exato momento em que digito este texto, às 00h de hoje, há um rapaz cantando num bar próximo a minha casa. Ele começou sua apresentação com Sangue Latino, gravada por Ney Matogrosso.)

Conta a lenda que Alcione, durante um show no Teatro Arthur Azevedo aqui em São Luís, parou a apresentação e deu uma bronca em alguém da plateia que insistia em conversar com o companheiro ao lado. Para que ficasse claro que ele estava no lugar errado, ela disse: “Eu não sou uma cantora de bar que fica cantando aqui enquanto vocês conversam ou tomam cerveja. Você pagou muito caro pra ver meu espetáculo. Comporte-se!”. Cláudio Pinheiro em entrevista a algum jornal da cidade disse satisfeito que em toda sua carreira nunca se apresentou em bar. Assistindo ao último programa Ídolos da TV Record testemunhei um desabafo de uma jovem cantora que, aos prantos, defendia sua permanência no programa porque estava cansada de cantar em bares pelo pouco dinheiro que recebia, pela atenção ignorada em relação ao seu trabalho e repertório, tendo que cumprir com a ditadura dos clientes que estavam ali querendo ouvir a música que lhes desse na telha. Também já ouvi Rita Ribeiro falar em entrevista que pegou nojo da música “Ronda” de Paulo Vanzolini porque um cidadão, obsessivamente, pedia toda noite esta canção no bar em que ela cantava. (Agora, o singelo cantor do bar próximo a minha casa entoa Aquarela, de Toquinho e Vinícius, e a está interpretando de um modo que eu nunca ouvi antes, meio gritado.)

Há também aqueles que construíram sua carreira nos bares e são reconhecidos como grandes intérpretes nacionais, a exemplo das cantoras Áurea Martins e Célia Maria. Já o músico Renato Vargas foi sucesso de vendas com sua coletânea “O Som do Barzinho” e fez a fama chegando ao quinto disco. Gravadoras apostaram também no DVD “Um Barzinho, Um Violão” e fizemos a festa em casa cantando juntos com nossos artistas preferidos as mesmas músicas que nos fazem chorar ridiculamente depois de altas doses etílicas. (Fagner, grande inspiração para 90% dos cantores da noite, garantiu mais uma pequena quantia no seu ECAD com a música Fanatismo que nesse instante nosso amigo do bar se empolgou.)

O bar é a dor e a delícia de um artista, seja quais sejam seus propósitos, anseios e categorias musicais. A música popular brasileira se faz mais popular, reconhecida e divulgada nestes espaços privados. Generoso, oferece a primeira oportunidade de apresentação pública aos iniciantes. Rigoroso, exige uma boa memória e um exercício eclético de assimilar todo tipo de canção. Excêntrico, pode ser vitrine das mais instigantes experiências antropológicas. Sedutor, pode criar uma aura de extrema luxúria ao artista que ali se apresenta diante de um público que só quer suprir carências afetivas. Insalubre, pode simplesmente acabar com a voz de algum(a) cantor(a) despreparado(a) ou mesmo ser violento quando surgem as brigas. Compensador, pode dar lições de vida ao artista que com uma música pode atingir a alma e o coração de algum cidadão mais sensível e também resgatar lembranças e memórias mais profundas. (Agora o nosso companheiro do bar está no setlist nordestino com a sequência Zé Ramalho – Alceu Valença – Geraldo Azevedo.)

O que é difícil de aceitar na relação artista X bar é reconhecer quando ele se torna necessário para a sobrevivência daquele enquanto profissional do entretenimento e das artes, que como qualquer outro tipo de profissional precisa sustentar a si e aos seus. E quando não há espaços públicos que ofereçam pauta de apresentações com a devida remuneração ao artista, espaços que deveriam dar suporte em todos os aspectos a estes profissionais - que é uma questão de políticas públicas culturais – veremos muitos deles com sua liberdade estética e criativa censurada pela ditadura do bar que exige um artista-feirante que vendam sua música do jeito que melhor agrade seu público-pagante de sua esmola-couvert. (Só para terminar a participação especial do rapaz que toda noite de sexta pretende cantar no bar Lampião, bairro Itaguará, São Luís, Maranhão, ele agora começou o repertório rock nacional. Algum quarentão deve ter aparecido por lá e deve estar simulando a bateria na perna enquanto lembra dos seus áureos vinte e poucos anos.)

Quem sabe num futuro próximo, numa terra encantada, possamos um dia usufruir de espaços públicos que deem total liberdade ao trabalho dos nossos artistas e invertamos a relação da música ao vivo por meio da tecnologia dos DVD's e dos espaços de karaokês. Ainda assim, sentirei falta de ouvir aquela voz e aquele violão que nos bares esbanjam todo o sonho de uma carreira a ser construída ou destruída desde os primeiros acordes e tons. Um lembrete redundante: eu digito de São Luís do Maranhão.

E como nesse blog tudo termina em música, “Nos Bailes da Vida” na interpretação mágica de César Camargo Mariano.

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A canção segue a torcer por nós. Milton Nascimento